Análise: DiRT Rally 2.0

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Sejam bem-vindos ao DiRT Rally 2.0, apertem os cintos e pisem no acelerador. DiRT Rally 2.0 continua a proposta do seu antecessor DiRT Rally lançado em 2015 para a PlayStation 4, Xbox One e PC. A nova edição aposta, mais do que nunca, na sua visão pura e árdua do rali.

A história desta franquia começou muito antes, quando o estúdio responsável, a Codemasters, anunciou o lançamento do primeiro jogo da saga Colin McRae Rally, em 1998, para a PlayStation 1 e PC. Colin McRae Rally foi fortemente inspirado no jogo de arcade Sega Rally, retirando também alguma inspiração do jogo da Nintendo 64, Wave Race 64, e do jogo para PC, Screamer Rally. Com apenas oito carros oficiais, os seus pilotos, e os percursos do World Rally Championship (WRC) de 1998, incluía ainda quatro carros extra e três graus de dificuldade. Embora não existisse um modo multiplayer baseado na Internet, o jogo permitia jogar em LAN, com suporte até 8 pilotos, na mesma rede, competindo de uma só vez, além de um modo de ecrã dividido para 2 jogadores. As vendas dispararam e a sequela Colin McRae Rally 2.0 foi lançada dois anos depois, em 14 de dezembro de 2000.

A saga Colin McRae Rally recebeu sucessivas sequelas ao longo dos anos, tornando-se uma referência nos jogos de rali. Em 2007, a Codemasters introduziu pela primeira vez o nome DiRT, que viria a fazer parte do título nos anos seguintes. A 14 de setembro de 2007 é lançada a versão para PlayStation 3 na Europa, um dia antes da morte do piloto escocês que deu o nome à série. Devido a este acontecimento, a Codemasters desistiu da grande campanha publicitária que tinha planeado para a promoção de Colin McRae: DiRT para a consola, uma medida acordada com a família do piloto. Apesar da sua morte, a Codemasters manteve o nome do piloto nos seus jogos de rally até ao lançamento de DiRT 3, onde o apelido foi descartado.

Lançado em 2011, DiRT 3 teve problemas mesmo antes de chegar às lojas. Uma falha de segurança no site de uma promoção da AMD resultou na perda de 3 milhões de chaves do jogo DiRT 3 para a plataforma Steam, que foram publicadas livremente na Internet. Além disso, a versão para Windows obrigava à instalação da plataforma ‘Games for Windows – Live’, que tornava o jogo impossível de ser corrido em versões Windows que não suportassem essa plataforma. Um problema resolvido anos mais tarde, acabando mesmo por ser retirado da plataforma Steam, devido à perda de licenças de alguns carros.

DiRT: Showdown, um spin-off do título original, lançado em 2012, propunha aos jogadores participar numa série de eventos “Tour”, oferecendo uma variedade de corridas e torneios para competir. Em 2013 surge Collin McRae Rally, pensado para os smartphones. O objetivo do projeto era criar uma experiência de corrida de rali para os dispositivos móveis. Com poucas opções de personalização, gráficos limitados e uma jogabilidade algo modesta, a versão do jogo para PC não foi positiva, tendo a Codemasters reembolsado os jogadores.

O primeiro simulador da franquia chega em 2015 com o título DiRT Rally, para PC e um ano mais tarde para as consolas PlayStation 4 e Xbox One. Desenvolvido pela Codemasters, com recurso a um motor proprietário, o Ego, a equipa pretendeu criar um simulador que tornasse ainda mais realista a experiência de jogo.

Saga Colin Mcrae Rally/DiRT Rally
Saga Colin Mcrae Rally/DiRT Rally. Imagem: DR

O jogo aplica um modelo de física diferente dos títulos anteriores, que foi construído a partir do zero. Com uma receção muito positiva, alcançou o número 1 na tabela de vendas físicas para PS4 no Reino Unido, e o número 19 na tabela de downloads na Europa. A revista oficial da PlayStation chegou a nomear DiRT Rally como o 16º melhor jogo de sempre para a consola.

Antes da sequela do primeiro simulador, chega em 2017 mais uma edição arcade para PC, PlayStation 4 e Xbox One. DiRT 4 é o décimo segundo jogo da série Colin McRae Rally e o sexto com o nome DiRT. Baseado em sistemas de gestão de equipas, o jogador tinha de contratar técnicos para reparar o carro, supervisionando as operações do dia-a-dia e reforçando o perfil da equipa para garantir novos patrocinadores. O jogo também permitia aos jogadores comprar e vender carros novos e usados, onde os resultados anteriores e históricos de acidentes tinham influencia no valor de revenda do carro.

Finalmente, DiRT Rally 2.0 chega em fevereiro de 2019. É o sucessor do jogo de 2015, Dirt Rally, e enfatiza a física de condução realista. Introduz pela primeira vez a componente de clima, com competições cronometradas, em pistas e percursos de terra batida. O jogo apresenta etapas na Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Polónia, Espanha e Estados Unidos. Dirt Rally 2.0 permite aos jogadores escolher entre um total de cinquenta carros, incluindo os supercarros do World Rallycross e oito circuitos do FIA World Rallycross Championship. Agora, todos os carros podem ter a sua configuração ajustada antes da corrida. A Codemasters também anunciou planos para expandir o conteúdo de DiRT Rally 2.0 através de DLCs quinzenais, que irão incluir o regresso de locais de rali desde o primeiro jogo, bem como carros como o Škoda Fabia e BMW M1.

DiRT RALLY 2.0

DiRT Rally 2.0

Para uma melhor análise a este título de referência no mundo dos ralis em videojogo, fomos consultar um especialista. Sérgio tem 36 anos e é um apaixonado pelo mundo automóvel. Já participou em várias competições online e dispõe de um playseat completamente equipado, com vários ecrãs para uma melhor experiência. Quisemos jogar nestas condições, para perceber todo o potencial deste simulador. Esta análise baseia-se numa versão do jogo para a PlayStation 4, maioritariamente jogado por amadores com recurso ao comando, e alguns apontamentos que recolhemos do Sérgio, como um piloto experiente e amante da modalidade.

Como base de comparação para o nosso teste de DiRT Rally 2.0, olhámos também para o seu antecessor DiRT Rally, uma vez que ambos se enquadram no género de simulação.

Apesar da maioria dos percursos e carros serem distintos entre as duas edições, e não incluírem qualquer modo de fotografia ou câmera livre, a comparação poderá não ser totalmente fidedigna, mas tentámos o melhor que o jogo nos permite, utilizando um percurso semelhante em ambas as edições, a mesma hora do dia e o mesmo carro, o Peugeot 208 WRX.

DiRT Rally 2.0
DiRT Rally 2.0. Peugeot 208 WRX. Imagem: DR

TEXTURAS

Com uma luminosidade quase idêntica é possível encontrar algumas diferenças nos pormenores em algumas texturas. O Peugeot 208 WRX apresenta um aspeto semelhante no exterior, sem diferenças significativas, a não ser alguns pormenores de sombras e arestas que foram melhorados, provavelmente resultado de uma tecnologia gráfica disponível atualmente mais avançada. Já no interior, as diferenças são mais notórias. A primeira edição de DiRT Rally apresentava um cuidado nos detalhes do painel de instrumentos e volante que parecem não ter tido continuidade na nova edição. Desde os parafusos do volante, até à profundidade do velocímetro, com um maior detalhe no display, até às luvas do piloto, que agora parecem mais desfocadas, sem o pormenor do relevo e textura das fibras. Nas janelas, a rede de segurança, que devia parecer ser feita de nylon, parece feita de borracha. De uma forma geral, a qualidade das texturas do jogo original parece ser superior, um resultado que não estávamos à espera, embora seja apenas evidente quando comparados lado a lado. A menor qualidade de texturas deve-se provavelmente ao esforço do estúdio em tornar o jogo compatível com a tecnologia de Realidade Virtual, por isso, não ter sido dada tanta atenção neste departamento. A Codemasters já garantiu que DiRT Rally 2.0 vai receber uma atualização que irá introduzir o modo de Realidade Virtual, e esperamos que junto com essa atualização, algumas texturas sejam melhoradas.

Por sua vez, no exterior, os ambientes parecem ter recebido uma grande atenção da equipa de desenvolvimento. A relva, embora utilize uma textura de base idêntica, inclui agora uma maior densidade de vegetação 2D que confere uma maior profundidade e realismo à paisagem. As estradas, por outro lado, têm um aspeto ligeiramente inferior no Rally 2.0, em particular o piso em terra batida. Obviamente não será uma diferença visível quando circulamos a alta velocidade, mas não deixa de ser curiosa esta diminuição de qualidade. Outros elementos que compõem o ambiente, como separadores ou cones de trânsito parecem ligeiramente melhorados, especialmente no desgaste e sujidade, o que confere algum realismo extra.

LUMINOSIDADE

A maior diferença na nova edição de DiRT Rally 2.0 é vista na luminosidade. Enquanto na edição de 2015 os objetos e paisagem pareciam figuras estáticas, sem vida e com uma luminosidade igual e aborrecida, em todas as componentes da imagem, na nova edição, os melhoramentos dos efeitos luminosos foram muito positivos e algo que merece o nosso aplauso. DiRT Rally 2.0 mostra agora um ambiente mais claro, com uma luminosidade global superior e um uso mais eficiente de brilhos e reflexos.

Por vezes, alguns brilhos chegam a ser demasiado intensos, ao ponto de encadear-nos durante a condução, não sendo necessariamente um efeito realista. O reflexo nas superfícies é agora muito mais impressionante, especialmente graças à técnica de ‘Screen Space Reflection‘, que permite gerar reflexos a partir da informação na própria imagem, sem necessidade de uma nova renderização. Além de ser menos exigente ao hardware, esta técnica permite criar visuais espantosos, especialmente visíveis na fuselagem do carro, enquanto curvamos a alta velocidade, ou em dias de chuva e com o piso molhado, capazes de dar um sentimento de imersão muito realista.

DiRT Rally 2.0
DiRT Rally 2.0. Imagem: DR

Na pista que utilizámos para esta comparação, foi muito notória a diferença no ambiente geral. Ao meio-dia de um dia chuvoso, o Peugeot 208 WRX parece outro carro e a pista tornou-se muito mais realista, com poças de água e superfícies refletivas. Em comparação com o primeiro DiRT Rally, que apresentava o escorrimento das gotas no carro, este efeito foi agora suprimido e substituído por um manancial de gotas de chuva que aparecem no ecrã e insistem interromper a nossa visão da estrada. O efeito das escovas limpa-vidros é visível em ambas as edições, apesar de agora as gotas não escorrerem nos vidros.

DiRT Rally 2.0
DiRT Rally 2.0. Imagem: DR

No que respeita à qualidade das sombras, notámos algumas mudanças. Durante uma corrida noturna, os faróis do carro agora iluminam de uma forma mais credível. Enquanto na primeira edição a luminosidade era uniforme em todos os ângulos de visão, agora isso já não acontece. Foram acrescentadas sombras e profundidade de luz, no mais pequeno relevo, tornando a experiência muito mais interessante. A sombra do carro é agora muito mais realista, com um gradiente que corresponde à intensidade da luz que é projetada sobre a fuselagem. Ainda assim, nem tudo é perfeito! DiRT Rally 2.0 continua a falhar nas sombras dinâmicas. Apesar dos ramos de uma árvore abanarem ao vento, a sua sombra mantém-se imóvel no chão.

DiRT Rally de 2015 já apresentava alguns efeitos visuais, que foram agora expandidos na nova edição, com maiores nuvens de poeira, marcas de pneus mais definidas e que permanecem durante mais tempo, algo que era difícil de concretizar na primeira edição.

SOM

A qualidade dos efeitos sonoros não parece variar muito entre as duas edições de DiRT Rally. Nota-se, no entanto, uma ligeira melhoria no efeito de backfire do escape, com ruídos mais sugestivos das alterações de rpm dos motores. No interior a diferença de som é mais notória. Se na edição de 2015 o som parece idêntico ao ouvido no exterior, no DiRT Rally 2.0 o som é abafado pelo habitáculo, o que transmite uma sensação mais próxima da realidade. Por exemplo, quando perdemos o capô do carro, o barulho do motor torna-se mais intenso, tal como na primeira pessoa ouvimos o motor à nossa frente, e quando na terceira pessoa ouvimos o barulho sair pela ponteira do escape. Todos os detalhes sonoros foram tidos em conta, como o som do asfalto a ser arranhado pelos pneus, o som das travagens ou impactos do carro com o piso. Os sons ambiente também estão presentes em DiRT Rally 2.0. É frequente ouvirmos os passarinhos, a plateia a conversar, ou a chuva. Estes são bem audíveis, o que torna a experiência mais imersiva.

Ainda não foi desta vez que o nosso copiloto aprendeu a falar português. Na ausência de uma versão localizada, fomos obrigados a escolher a versão em inglês, que por si só não seria grave, e até adicionou algum dramatismo às nossas corridas. Mas, perceber o inglês deste copiloto, entre curvas apertadas e chuva torrencial, pode ser um desafio interessante. Em 2015 parecia mais fácil perceber a navegação, já que em 2019, o nosso copiloto parece ter emigrado para a Austrália e adquirido um sotaque demasiado ‘aussie’.

JOGABILIDADE

Uma das grandes novidades que fará as delicias dos fãs é a física mais apurada durante a condução. Com uma manobrabilidade mais realista, que varia de carro para carro, inclui uma sensação de peso e tração que não estavam presentes na edição de 2015. O dano causado no veículo também tem influência na condução. O travão está agora menos sensível e de certa forma mais realista. A degradação do terreno é um novo sistema introduzido nesta edição, que provoca alterações de relevo na pista pela passagem de outros pilotos. Este é um sistema muito inovador e mais desafiante do que nunca, já que esta não é uma mudança apenas visual, a jogabilidade também é afetada, obrigando a um maior esforço para a estabilização do carro em cada sulco criado pelos pneus dos nossos competidores.

Para fazer face a este novo desafio, o jogo agora oferece a possibilidade de escolhermos o tipo de pneu que queremos utilizar. Desde o pneu mais macio, médio até ao duro, cada um oferece diferentes características que podem tornar-se uma vantagem competitiva em alguns tipos de terreno. Mas cuidado! Aqui também os pneus sofrem desgaste ao longo da corrida.

CAMPANHA

Agora, para jogar a campanha de DiRT Rally 2.0 é necessária ligação à Internet, uma vez que o jogo obriga a conexão aos servidores da RaceNet, que vão guardar a evolução e configurações de jogo. Sem uma ligação à Internet, é impossível jogar! Esta é a medida que a Codemasters encontrou para combater a pirataria, algo que achamos negativo e demasiado limitador, especialmente para quem quer apenas fazer umas corridas casuais. É uma medida controversa que não vemos como positiva, nem faz sentido para nós, além de ser uma tendência que parecia estar a desvanecer, principalmente para campanhas de um só jogador.

VEREDITO

Perder o controlo do carro, capotar, estabilizar e capotar de novo, misturando algumas melhorias gráficas e novas opções de jogabilidade, DiRT Rally 2.0 resulta numa versão melhorada do seu antecessor DiRT Rally, com mecânicas inspiradas no DiRT 4. Com visuais mais vivos, efeitos sonoros ridiculamente reais, uma maior personalização dos carros e mais pistas e percursos para competir, este não é só o melhor simulador de ralis de sempre, mas arrisca-se a ser o melhor jogo de condução automóvel de todos os tempos.

Se à partida o jogo parece ser perfeito, infelizmente temos de realçar o facto de obrigar a uma ligação constante à Internet, mesmo em singleplayer. A ligação aos servidores da RaceNet é uma obrigatoriedade que podia ser substituída por sincronizações pontuais, e opcionais no caso de o jogador pretender receber troféus por objetivos ou novas atualizações. Por falar em atualizações, a promessa de futuros DLCs é algo positivo, que pode aumentar a longevidade e torna o jogo mais interessante durante a decisão de compra.

O novo copiloto é um pouco difícil de compreender, tendo em comparação o inglês britânico do seu antecessor. A inclusão do Ford Mustang e do Aston Martin num simulador de rali foi algo que nos deixou surpreendidos. Apesar de sermos fãs dos modelos, não achámos que se enquadre na modalidade.

Introduzido pela primeira vez na série, o sistema de degradação do piso em tempo real e as alterações climáticas foram uma boa adição e que aumenta ainda mais o fator de simulação, que é o propósito deste jogo. Com belas paisagens e carros detalhados, sentimos a falta de um de modo de fotografia ou câmera livre.

De uma forma geral, DiRT Rali 2.0 é um jogo muito bom, mas com alguns problemas e com algumas decisões controversas da Codemasters. Com uma física reconstruída e difícil de dominar, o que pode tornar-se desafiante, apresenta os melhores gráficos e som de toda a série, tornando-se um título obrigatório para qualquer fã da modalidade.

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Positivo
Excelente aspeto visual, com paisagens e cenários muito detalhados, com bom efeitos de luminosidade.
Novos sistemas de degradação de terreno em tempo real e alterações climáticas favorecem o desafio e sentido de imersão.
Mais pistas e percursos utilizáveis, com mais carros disponíveis e mais opções de personalização.
Futuros DLCs prometem aumentar a longevidade do jogo, com mais pistas e veículos.
Negativo
Obrigatoriedade de acesso constante à Internet e à rede RaceNet.
Qualidade de algumas texturas é inferior ao esperado.
Na ausência de uma versão localizada em português, a voz inglesa do copiloto não serve como alternativa.
8.5
Muito Bom

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